Foto: Crédito Nova Mutum EC - Arquivo Pessoal


O site Olhar Esportivo dá sequência na Série “Olhar da Bola”, que revela histórias curiosas das carreiras de jogadores de futebol envolvidos com o estado de Mato Grosso. Depois das resenhas do zagueiro Anderson Conceição, do Cuiabá, do goleiro Neneca, do União, e do meia Pikachu, do Operário(VG), chegou a vez do atacante Jil Bahia, de 31 anos, do Nova Mutum.

Jil começou a carreira um pouco tarde, aos 23 anos, no Juazeiro Social Clube (BA). Em um curto espaço de tempo, ele fez uma saga buscando diversas oportunidades no Brasil até ir para Europa.

“Eu não comecei como maioria dos jogadores. Iniciei com 23 anos de idade no futebol, em 2012, no Juazeiro Social Clube, na primeira divisão do baiano. No mesmo ano fui para o Galícia, na segunda divisão. O treinador do sub-23 do Bahia me levou, onde fiquei por alguns meses. Depois fui pra o Boca Júnior de Sergipe, tudo isso em 2012. Em 2013, eu retornei pra Bahia, joguei pelo Fluminense de Feira. Em seguida, fui para o Petrolina (PE) jogar alguns jogos restantes da primeira divisão do pernambucano. Depois fui pra o Pato Branco no Paraná, jogar a divisão de acesso, onde terminando lá, comecei a minha caminhada internacional”, disse o atacante ao Olhar Esportivo.

Logo depois veio então a “turnê” no exterior. Em 2014, Jil Bahia foi para a Bélgica, ficou uma temporada sem jogar, com problema na documentação. Um ano depois, defendeu o Hajer Club, da Arábia Saudita. Também passou pelo KF Teuta, da Albânia, pelo FK Sutjeska da Sérvia Montenegro, além do Saham Club, de Omã, que disputava a primeira divisão do país árabe.

“Na Arábia Saudita, terminamos um jogo fora de casa, vínhamos retornando pra nossa cidade, Al Hasa Hofuf. Paramos pra jantar, os diretores pediram a comida e todos os atletas sentaram em um espaço, no chão, em um tapete. Tudo tranquilo, aí do nada chega uma bandeja de arroz, e a parte traseira do carneiro em cima do arroz. O time separado em grupos de mais ou menos oito pessoas, eu logo estranhei, como vamos comer isso. Aí onde entra a resenha, eles começaram a comer com as mãos numa velocidade, e eu pensei, se eu também não comer, vou ficar com fome. Então comecei, só que sem prática, o arroz derramava tudo. Final da história, não me alimentei direito e fiquei com fome até retornarmos pra casa, com uma fome de leão e rindo da situação”, revelou Jil Bahia.

O atacante retornou ao Brasil em 2018, pelo Juazeirense (BA), para jogar o Estadual e a Série C do Brasileiro. Em 2019, foi para o Passo Fundo (RS) e no mesmo ano, para o Jacuipense (BA), onde conquistou o tão sonhado acesso para Série C. Em 2020, foi contratado pelo Nova Mutum para o Campeonato Mato-grossense, por onde fez seis jogos dos nove disputados, e ajudou a classificar o time debutante na primeira divisão às quartas de final.

Após a pandemia da COVID-19 e suspensão do campeonato, os atletas tiveram alguns dias de indecisão, mas acabaram sendo liberados, principalmente após os vencimentos dos contratos, e ainda sem previsão de retorno da competição. Enquanto isso, Jil passou 30 dias na fazenda, onde percebeu sentimentos importantes diante da sua família, muitas vezes distante por conta da carreira, descobrindo seu filho como parceiro de treino.

“Eu estava na fazenda, fiquei por 30 dias com minha esposa, filho, pai e mãe. Lá procurava o máximo tentar se adaptar ao local, com poucas opções pra treino. Então meu filho era meu parceiro, fazíamos treinos de corrida. Acordava às 05:45 e ia pro chiqueiro com meu pai, tirar leite das cabras. Quando retornava do chiqueiro, ia pra cisterna, que é um reservatório de água potável aqui no nosso interior do sertão baiano, onde supre toda a necessidade nossa, dos nordestinos, no tempo da seca. Retirava água pra poder encher todos os potes e vasilhas pra cozinhar, lavar a casa, os pratos e para beber. Terminando esse processo, chamava meu filho e começávamos um treino de cardio, corria com ele em torno de 2 km. Retornando na entrada da casa dos meus pais tem uma subida, ali iniciávamos os trabalhos de tiro, velocidade, explosão, força, mas por ele ser criança com apenas 8 anos de idade, não tem resistência, então procurava motivar, dizendo que se quer ser jogador de futebol, tem que superar, você tem que ser mais rápido do que eu. Então automaticamente ele se motivava e eu também, porque via no olho dele a vontade de um dia ser um grande jogador de futebol. Aquele espírito de querer chegar, mostrar pra mim que ele também conseguia, era o combustível pra eu também continuar. Assim fizemos esses tipos de trabalhos por vários dias, 1x1 driblando, core, agilidade, sempre eu e ele. Em tudo isso, percebi o quanto tinha perdido o crescimento do meu filho, o quanto ele precisava de mim ao lado dele. Por sempre ficar longe de casa, desde quando iniciei minha carreira, nunca fiquei muito tempo, sempre de um a dois meses no máximo. Mas sabe, cabeça de jogador quando está em casa e sem clube, já começa a matutar, procurando outro clube pra dar continuidade e acaba não dando aquela atenção devida à família. Nessa quarentena percebi o quanto ele precisa de mim, então foram um dos melhores momentos da minha vida ao lado do meu filho. Brincamos, treinamos, se abraçamos, sorrimos juntos”, lembrou Jil, emocionado.

Porém, nem tudo que é bom dura para sempre. O atacante e sua esposa tiveram que voltar para a cidade, para dar sequência nos trabalhos e treinamentos. Desta vez, o sacrifício tornou-se a limpeza de uma praça, único local para garantir seu treino diário, porém com um fato inusitado, e para variar, muitas resenhas.

“Tive que retornar para cidade, resolvermos algumas coisas, como a situação do clube. Por prevenção deixei meu filho na fazenda e viemos. Aqui resolvi o que tinha para trás, graças a Deus o Nova Mutum Esporte Clube honrou os compromissos com todos nós. Nós que somos atletas de clubes de menor expressão, temos sempre que buscar soluções pra darmos continuidade na questão financeira, quando não estamos trabalhando. Graças a Deus não foi o meu caso, como de muitos amigos que ficaram desempregados nesse período de pandemia, tiveram que trabalhar em outros ramos pra poder manter as obrigações diárias em casa, e a família. Chegando aqui dei continuidade aos meus treinos, com um grande amigo meu de infância. O Antônio Carlos, conhecido como Café, sempre é motivado pra treinar, um cara de uma garra e determinação invejável. Combinamos de iniciarmos uns treinos pra manter a parte física, porque ele joga em muitos lugares aqui na região. Como está tudo interditado, fomos na praça ao lado da minha casa, só que lá estava cheio de mato e espinhos, começamos a limpar o espaço. Mas aí vem outra resenha, limpando a praça, retirando os matos, uma amiga nossa chegou pra passear com os cachorros na praça. Nisso, ela foi embora com os cachorros e depois de umas três horas, terminamos. Aí o Café trouxe o celular, a garrafa de água, alguns acessórios. Na hora que o Café foi pegar o celular na sacola, quando abriu, cheio de urina de cachorro, foi ligar o celular, deu PT. Não funcionou mais. Cachorro abençoado. Não aguentamos de tanto rir”, contou o atacante.

O Nova Mutum, em seu primeiro ano no profissional, foi campeão da segunda divisão do Mato-grossense no ano passado. Em 2020, se classificou para as quartas de final da primeira divisão, em quinto lugar, para enfrentar o Sinop, que ficou em quarto.

“Que possamos nos unirmos em uma só causa, para superar essa pandemia juntos. Fazermos as precauções, lavarmos as mãos, usar máscara e vamos vencer esse momento tão difícil que o mundo está passando, para logo voltarmos a trabalhar e fazermos o que mais amamos”, completou Jil Bahia.

Por: Pedro Lima / da Redação


Atacante em atividade pelo Nova Mutum - Crédito NMEC

Jil Bahia aproveitou o filho durante 30 dias como companheiro de treinos na fazenda - Arquivo Pessoal

Jil e seu amigo Café, na limpeza da praça em Curaça-BA, para realização de treinamentos durante quarentena - Arquivo Pessoal