Foto: Divulgação Arquivo Pessoal


Após lançar no dia 25 de abril, com o zagueiro Anderson Conceição, do Cuiabá, a Série de reportagens "Olhar da Bola", que visa conhecer detalhes das carreiras de personagens importantes do futebol mato-grossense, o site Olhar Esportivo bateu um papo com o goleiro rondonopolitano Anderson Soares da Silva, conhecido como Neneca, do União.

Atualmente com 39 anos, Neneca está no União desde início de 2019, de volta 19 anos depois de ter saído do estado, sendo destaque e ajudando o Colorado a chegar à semifinal do Mato-grossense do ano passado. Em 2020, ele foi titular em todos os 10 jogos da equipe na temporada.

Olhando o início

Nascido em Rondonópolis, Neneca passou a sua infância jogando bola entre amigos, porém não treinou em escolinhas ou categorias de base, iniciando sua jornada no futebol somente aos 18 anos, em Cuiabá, praticamente direto no profissional, na Associação Desportiva Mato Grosso, fundada pelo finado Luís Carlos Tóffoli, ex-jogador mais conhecido como Gaúcho, que também fundou o Cuiabá Esporte Clube poucos anos depois.

“Eu trabalhava de auxiliar em uma empresa, como toda empresa tem o seu time de futebol, daí comecei a jogar pela empresa na época, bastante futebol society, e o pessoal falava comigo, que tinha futuro, para tentar a carreira como jogador. Aí eu amadureci a ideia e levei a sério, mas tinha as dificuldades, o que mais têm no início da carreira, porque têm as incertezas, não sabe se vai vingar mesmo jogador profissional. Meus pais tinham dificuldade muito grande para me manter fora. No início eu fui para Cuiabá, fiz um teste na Escolinha do Gaúcho, consegui passar. Disputei só um mato-grossense juniores, inclusive tinha o Perereca, o Hugo Alcântara, aí fiquei quase dois anos em Cuiabá, no AD Mato Grosso. Foi uma coisa bem automática, comecei um pouco tarde, com 18 anos, logo sai do juniores e engrenei no profissional”, revelou Neneca ao Olhar Esportivo.

Oportunidade de jogar em casa e apelido

No começo da década de 2000, Anderson, futuro Neneca, voltou para casa, para jogar no União, time que defende atualmente. Disputou o Campeonato Mato-grossense, a Copa do Brasil e o Módulo Branco da Copa João Havelange daquele ano pelo Colorado.

Logo depois, o goleiro foi para São Paulo, passou por União São João de Araras e Flamengo de Guarulhos, onde deu tempo de ganhar o apelido eternizado.

“O apelido Neneca vem do goleiro que era do Guarani (SP), jogou na década de 70 e 80, campeão brasileiro em 78. Que Deus o tenha. O apelido é em semelhança com ele. Na época que eu tava no Flamengo de Guarulhos, tinha um treinador de goleiros, o Ilsão, ele falava que Anderson não dava para o futebol, ainda mais para goleiro, aí ele falou que eu parecia com o Neneca que jogou no Guarani, daí para frente começou, ele me chamando de Neneca pra lá, pra cá, acabou pegando, não teve jeito”, contou.

Primeiro título nacional e temporada no gelo

Neneca então chegou ao União Barbarense em 2004, por onde conquistou seu primeiro título brasileiro, campeão da Série C. Surgiu a oportunidade de ir para Europa, mais especificamente para o Pogon Szczecin da Polônia, mas o frio foi o que ficou marcante.

“Na Polônia foi complicado, muito frio. Foi boa a experiência, mas eu achei que ia morrer de frio, porque nevava o tempo inteiro. Fui daqui para lá com outros brasileiros, fomos com os nossos agasalhos, quando desembarcamos lá, foi a mesma coisa que estar sem nada, de tão frio que era. Não amenizava em nada. Tivemos a sorte que o clube logo já foi disponibilizando agasalhos para gente, onde deu uma melhorada. Mas lá foi difícil, o idioma complicado, a comida muito diferente da nossa, fiquei quase um ano nessa luta contra o frio”, risos.

Marcado na história

Após o retorno ao Brasil, com destaque no União Barbarense (SP), Neneca ganhou a chance de defender o Santo André (SP), ficando marcado na história com mais de 180 atuações pelo clube.

“Veio o Santo André, que foi um dos clubes que mais fiquei, praticamente quatro anos, dentro deles têm títulos e acessos. Fomos campeões da Série A2 do Paulista e conquistamos o acesso para a Série A do Brasileiro, foi marcante”, disse Neneca, que jogou pelo clube nas temporadas de 2007 a 2010, tendo uma passagem recente em 2018.

Em meados de 2011, Neneca trocou São Paulo por Minas Gerais, para defender o América Mineiro no Brasileirão. Ficou praticamente três anos no time de Belo Horizonte e foi eleito melhor goleiro do Campeonato Mineiro em 2012. Na sequência, foi para o Figueirense (SC), onde conquistou outro acesso da Série B, em 2013, e o título catarinense, em 2014.

Valorizado, Neneca também teve outro caso duradouro no futebol. Foi contratado pelo Botafogo de Ribeirão Preto (SP) em 2015, conquistando o título da Série D do Campeonato Brasileiro no mesmo ano e permanecendo por três temporadas.

“Para a família foi bom demais né, viu um menino sair do nada e começar a despontar no futebol. Ficaram muito feliz quando eu fui para os clubes de maiores expressão no cenário, expectativa muito alta, todos torceram bastante por mim”, agradeceu.

Ao longo da carreira, que completa 21 anos em 2020, o goleiro mato-grossense atuou do mesmo lado e contra diversos jogadores consagrados do futebol brasileiro e mundial.

“Joguei junto com Marcelinho Carioca, Fernando volante, Rodrigo Fabri, Sidney, Gustavo Nery, essa turma toda. Além dos mais recentes, Rodriguinho, Pablo, Tiago Volpi, Diego Pituca. Aí joguei contra o Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho, Petkovic, Marcos, Rogério Ceni, Gabigol, muitos aí”, relembrou.

Com o olhar no presente e de volta à terra natal

Neneca voltou ao União em 2019, trouxe experiência ao time Colorado e ajudou a garantir o calendário 2020, com Copa do Brasil e Série D. Neste ano, o União foi eliminado na Copa do Brasil, pelo Atlético (GO), e se classificou em terceiro lugar na primeira fase do Mato-grossense, até ocorrer a suspensão do campeonato.

Por fim, em entrevista exclusiva ao Olhar Esportivo, o atleta de 39 anos disse que pretende continuar somando como jogador profissional no União.

“Já chegando na casa dos 40, as vezes fico pensando como vai ser, as vezes fico de boa. Mas eu estava feliz, boas atuações com o União, o time estava bem encorpado, numa expectativa muito boa de dar seguimento nos trabalhos, infelizmente aconteceu isso. Temos que estar sempre preparados, eu estou treinando três vezes por semana, tentando manter a forma, para quem sabe voltar as competições. Me sinto muito bem fisicamente, me cuido muito, a genética ajuda graças a Deus, tive pouca lesão para falar a verdade. Vou jogando, pretendo jogar mais esse ano, o ano que vem e ver o que vai acontecer. Meus amigos que ainda falam que eu jogo mais uns três anos, para não ter a intenção de parar, mas a gente sabe que não é bem assim, mas enquanto eu estiver bem, vou jogar”, completou Neneca.

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Por: PEDRO LIMA / DE CASA


Neneca campeão brasileiro da Série C pelo União Barbarense em 2004 - Arquivo Pessoal

Time do Santo André campeão da Série A2 em 2008 - Foto: Orlando Lacanna

Neneca no Santo André em 2009, frente à frente com o atacante Washingtom "Coração Valente", ex-São Paulo - Foto: Sérgio Castro/AE

Goleiro mato-grossense pelo América-MG na Série A - Dhavid Normando/Photocamera