Na Série de entrevistas “Olhar da Bola”, xerife do Dourado, que concretizou o seu maior sonho aos 22 anos, revelou as memórias da carreira ao Olhar Esportivo

O site Olhar Esportivo lança neste dia 26 de abril, em meio à suspensão das competições esportivas no Brasil, a série "Olhar da Bola", para saber detalhes das carreiras de personagens importantes, principalmente da atualidade do futebol mato-grossense.

A estreia da série de reportagens é com o zagueiro Anderson Conceição, um dos mais experientes jogadores do Cuiabá. Nascido em Caravelas na Bahia, criado em Nova Viçosa, sul do estado, Anderson vem de família simples, como a maioria dos jogadores de futebol. Com início difícil no time do Campo Grande (RJ) na adolescência até passagem marcante pela Europa, o atleta do Dourado é um exemplo de superação profissional.

Atualmente com 30 anos, Anderson chegou “chegando” ao Cuiabá na temporada passada, tendo alta regularidade na Série B do Brasileiro e campeão da Copa Verde em novembro, com aproximadamente 30 jogos em cinco meses pelo clube.

Na sua estreia contra o Vitória (BA) e jogo seguinte contra o Sport (PE), o zagueiro marcou dois gols, sendo os únicos até o momento com a camisa do Cuiabá, mas que não tiram sua galhardia dentro de campo. Foi apenas o cartão de visita!

Olhando o início

No início da adolescência, Anderson saiu de casa e foi se aventurar no Rio de Janeiro, atrás do seu sonho de ser jogador de futebol. Conseguiu passar no teste do Campo Grande como meio-campista, mas pela altura, acabou se tornando zagueiro.

“Eu comecei muito cedo no futebol, esse sonho me acompanha desde sempre. Sai muito cedo de casa, aos 11 anos de idade, passei em uma peneira pra jogar no Campo Grande do Rio de Janeiro, daí começou a minha caminhada, sempre fui muito focado e determinado. Cheguei em um clube que me ajudou a amadurecer e ser responsável muito cedo, me lembro que eu estava indo até bem no meio-campo, mas aí o time ficou sem zagueiro, e como eu tinha tamanho, o treinador pediu pra quebrar um galho na zaga, acabei indo muito bem, virando zagueiro”, disse Anderson Conceição.

Depois do Campo Grande, Anderson despertou interesse de clubes com maior expressão na base. Voltou para seu estado natal, no Bahia, novamente foi para o Rio de Janeiro, no Vasco, até chegar ao Santos, por onde jogou ao lado do atacante Neymar.

“Terminei a minha formação no Santos, onde fiquei por quase três anos, tive o privilégio em concluir a minha base em um grande clube. Trabalhei com Neymar, Ganso, entre outros. Eles estão aí na foto”, lembrou o zagueiro.

Hora de se profissionalizar

Após a experiência no Santos, jogando a Copa São Paulo ao lado de grandes nomes, aos 18 anos, Anderson Conceição se profissionalizou em outra equipe do interior paulista, onde teve experiência com jogadores consagrados do futebol mundial.

“No Mogi Mirim (SP), onde fiquei de 2008 a 2010, foi um momento de transição muito importante pra mim, tive a oportunidade de jogar o Campeonato Paulista em 2009, com grandes jogadores, exemplo Giovanni, o Messias como era chamado na época de Santos, um cara que era referência no clube. Além de ter como presidente, nada mais que Rivaldo, pentacampeão do mundo. Foi um privilégio receber conselhos desses caras que levo comigo até hoje”, afirmou Conceição.

Primeira transferência profissional

Não é difícil acharmos jovens jogadores procurando novos ares, foi o que fez o zagueiro Anderson Conceição para alavancar a carreira.

“Sempre fui um cara que sonha grande e já não estava mais disposto a permanecer no Mogi. Acertei no Resende (RJ) para jogar o Carioca a pedido do treinador Paulo Campos, um cara que tenho uma gratidão imensa, acabei me destacando, joguei todos os jogos e assinei com o empresário Eduardo Uram, com quem tive a felicidade de trabalhar durante sete anos. A minha carreira progrediu, cheguei ao Criciúma (SC) no Brasileiro da Série B em 2011, era minha primeira competição nacional, com 21 anos. O Guto Ferreira foi o treinador que me deu a oportunidade lá, onde entrei e não sai mais do time, lembro que com cinco jogos apenas eu já tinha proposta de Internacional e Grêmio, mas meu empresário queria que eu terminasse o ano no Criciúma”, revelou o jogador.

Na sequência da Série B, o nome do atleta atingia regiões mais distantes. Veio a primeira proposta da Europa, do Hoffenheim, da Alemanha, porém ficou na ilusão e acabou se tornando um obstáculo. Anderson permaneceu no Criciúma e gerou interesse do Flamengo, mais uma negociação frustrada.  

“Chegou uma proposta do Hoffenheim, de um ano e meio de contrato pra ir para Bundesliga, o Firmino jogava lá na época, era um enorme salto na minha carreira, financeiramente também. Tudo certo, passagem no e-mail, no dia da viagem, eu indo pro aeroporto, o filho do meu empresário liga avisando que o negócio tinha sido cancelado, fiquei frustrado, mas sempre fui temente a Deus, não foi para ter ido, dei seguimento. Voltei ao Criciúma pra jogar o estadual e lá me destaquei, depois estava acertando no Flamengo, era um grande salto na carreira, imprensa carioca ligando, dando como certa minha ida pro clube, aos 22 anos, chegar em um clube gigante, seria muito bom, mas também acabou não dando certa a negociação”, explicou.

Com os olhares no exterior

O destino do jogador continuava em Santa Catarina, mas não por muito tempo. Anderson Conceição acertou com o Figueirense e jogou a sua primeira Série A, sendo negociado com o futebol espanhol, quando chegou a vez de enfrentar os melhores na elite do futebol mundial.

“Acabei acertando no Figueirense pra jogar a Série A do Brasileiro, joguei 12 jogos, fui negociado com o Mallorca da Espanha. Cheguei na La Liga aos 22 anos, joguei contra os melhores do mundo, foi fantástico, uma experiência gigantesca. Joguei junto com grandes jogadores, como Giovanni dos Santos, Pedro Geromel, entre outros. Marquei Cristiano Ronaldo, Messi, Alexis Sánches, Kaká, entre outros jogadores. Joguei contra um cara que eu gosto muito, que é o Sérgio Ramos, foi um sonho realizado, para um garoto que até pouco tempo estava no Mogi Mirim. A vida é assim, cheia de altos e baixos, hoje falo para os meus filhos, que eles podem ser o que quiserem, é só correr atrás e ter perseverança”, enfatizou o zagueiro.

Idas e vindas

Anderson jogou uma temporada na Espanha e não renovou, assim voltou ao Brasil, onde acumulou conquistas. Em 2013, jogou no Atlético (GO), e em 2014, no Bahia, teve o seu primeiro título profissional, o Campeonato Baiano. No mesmo ano se transferiu ao Joinville, novamente para o estado catarinense, sendo campeão brasileiro da Série B. Em 2015, conquistou o acesso à Série A pelo América (MG), com 43 jogos realizados no ano.

Novamente Anderson teve mais uma oportunidade no exterior. Foi para o Philadelphia Union, da Liga MLS nos Estados Unidos. Segundo o atleta, foi um ano difícil dentro de campo, mas que teve seus benefícios na carreira e na vida.

“Teve o lado bom e o lado ruim. Lado bom, uma nova cultura, aprendi a língua inglesa, fiz amigos, trabalhei com Fabinho, que é uma lenda lá, Ilsinho, um fantástico jogador, Barnetta, que jogou muito tempo no Schalke da Alemanha. Lado ruim que eu joguei muito pouco, acabei ficando frustrado, perdi praticamente um ano sem jogar”, lamentou.

Sem a sequência dentro de campo, Anderson Conceição tinha mais um novo desafio na carreira. Voltar a jogar. Acertou com o São Bernardo para o Paulista em 2017. Segundo ele, uma experiência curta, com perdas, mas que rendeu frutos.

“Eu precisava jogar, acertei no São Bernardo para o Paulistão, o treinador era um dos melhores que já tive, o português Sérgio Vieira, me ensinou muita coisa, gratidão demais. Joguei o paulista, não fomos bem, caímos, mais um choque, fiquei sem clube por três meses. Graças a Deus sempre fui comprometido e com um caráter gigante, as pessoas sempre lembram de mim, o Sérgio Vieira acabou me indicando para três clubes em Portugal, Feirense, Marítimo e Chaves. Acertei no Chaves, era uma volta à Europa, fiquei apenas seis meses, mas foi bom ter morado lá com minha família”, afirmou.

Entre o vai e volta, Anderson disse ter tomado decisão importante na carreira, jogar no CRB em 2018.

“Recebi a proposta do CRB, uma das melhores decisões da minha vida. Joguei 53 jogos na temporada, melhor zagueiro do estadual, uma Série B muito boa, cai nas graças do torcedor, onde sou lembrado até hoje. Fui para seleção da década do clube, um trabalho maravilhoso naquele clube, que tenho muita gratidão.”

Porém o caminho do exterior, mais precisamente do Oriente Médio desta vez, entrou à sua frente novamente. “Em 2019, recebi uma proposta irrecusável do futebol do Catar (Umm-Salal), novamente por seis meses. Fui pra lá, na estreia fiz um gol, que deu a vitória para o time, conheci mais um país, outra cultura, uma experiência curta, mas proveitosa”, contou Anderson, revelando mais um fato curioso sobre as suas transferências. “A minha ida pro Catar foi coisa de Deus, era o último dia do meu empresário Maurício Nassif no país, ele estava vendo o jogo do time lá, o zagueiro machucou, o diretor do time foi na direção dele e disse, preciso de um zagueiro, canhoto, com as características que são as minhas. Meu empresário falou pro diretor, tá aqui o vídeo, olha aí o zagueiro, deu certo”, risos.

Com o olhar no presente: história no Dourado

A vida atual se move ao Cuiabá Esporte Clube, além da família. Foi aqui em Mato Grosso que o atleta desembarcou no meio do ano passado, com sua esposa e dois filhos, uma menina e um menino, dando sequência na sua história dentro de campo.

“O Cuiabá passava um momento complicado no campeonato, quatro derrotas seguidas, e a parada pra Copa América, era hora de mudanças, dispensas, um momento conturbado no clube. Recebi uma mensagem no direct do meu insta, do analista de mercado, Marquinhos, que trabalhava no clube. Perguntou se eu tinha interesse em vir ao Cuiabá, eu tava conversando com Vitória (BA) na época, sobre um possível acerto, mas aí o Michel Alves, que era o diretor, entrou em contato comigo e me trouxe para cá, na volta da série B. Logo na minha estreia fiz um gol muito importante, na fase que o clube tava passando. No jogo seguinte contra o Sport (PE), fiz outro gol, aos 50 do segundo tempo, uma emoção grande. A equipe acabou crescendo no campeonato, lembro que terminamos o primeiro turno em quinto lugar, e todo mundo passou a olhar diferente pro Cuiabá. Enfim fizemos uma Série B muito boa e ainda coroamos o ano com o título da Copa Verde, inesquecível 45 mil pessoas no Mangueirão, gol do Paulinho, aos 50 do segundo tempo, que ano. Renovei para dar continuidade na minha história aqui no Cuiabá, um clube onde sou muito feliz, minha família também, a cidade me acolheu super bem, me sinto bem aqui”, completou Anderson Conceição.

Em sua despedida da entrevista exclusiva com o Olhar Esportivo, o atleta de 30 anos disse que seu maior sonho foi concretizado aos 22, quando conseguiu tirar a mãe do aluguel e comprar uma casa própria para ela, em Porto Seguro (BA).