Nada.

 

Sim, é isso mesmo. O jogo entre Atlético Paranaense e Coritiba que não aconteceu é o mercado se auto regulando, se adaptando, resolvendo seus problemas. E a melhor coisa que o governo pode fazer é não fazer nada.

Todas as partes envolvidas (torcedores, clubes, federações e mídia) são instituições privadas em busca do que é melhor para seus próprios interesses. E não há nada de errado em cada um agir de acordo com seus interesses, com exceção de alguma provável quebra de contrato – e nesse caso deixemos para a justiça fazer seu papel e decidir quem tem razão na suposta questão do credenciamento da imprensa.

Os problemas

Torcedores obviamente torcem para um clube. Para que um clube exista e dispute competições oficiais ele deve estar filiado a uma federação estadual. Federações estaduais devem ser filiadas a uma confederação nacional (no caso a CBF). Confederações nacionais são filiadas a uma confederação continental e estas são filiadas à FIFA, que é quem controla o futebol mundialmente.

Sim, é uma estrutura gigante e muito bem amarrada. Para se ter uma ideia, se alguma confederação não respeitar as regras estabelecidas pela FIFA, sua seleção nacional não pode disputar torneios entre seleções (como a Copa do Mundo, por exemplo). E, se algum clube se desfiliar de sua federação estadual, ele estará impedido de jogar competições nacionais e internacionais.

As famigeradas federações estaduais não servem para nada a não ser para morder parte da renda dos jogos e sustentar cartolas parasitas que são eleitos por um absurdo sistema “democrático” em que ligas amadoras e clubes semiprofissionais acabam elegendo os mandatários.

Outro grande problema é o fato de que todos os grandes clubes brasileiros são instituições sem fins lucrativos. Seus presidentes são eleitos por sócios baseados em velhos estatutos e boa parte de seus dirigentes exercem cargos “não remunerados”. Tal modelo, muito parecido com o que temos em nossos governos, é um dos grandes males do nosso futebol. Primeiro que se não tem dono então não é de ninguém. Segundo que isso estimula a corrupção. Dirigentes tem apenas três ou quatro anos pra roubar o máximo que puderem e aí deixar o clube quebrado para o próximo que assumir.

Além disso, existe ainda a questão dos direitos de transmissão. Segundo uma lei estatal conhecida como estatuto do torcedor, para que um jogo possa ser transmitido por algum veículo de mídia, este deve entrar em acordo com ambos os clubes participantes. Esta negociação não tem (ou não deveria ter) qualquer interferência de federações, já que o direito é exclusivo dos clubes. Então normalmente canais de TV negociam particularmente com todos os times participantes de um campeonato, a fim de chegar a um acordo com cada um, para que ao final possam transmitir todos os jogos realizados entre eles.

Os direitos de transmissão, após a implosão do Clube dos Treze, são negociados individualmente por cada time – uma mentalidade ultrapassada, que torna a competição cada vez mais desigual, menos interessante para o público e facilita o domínio de grandes empresas como a Rede Globo.

Então como fica a liberdade?

O que deve fazer o clube que não concordar com este sistema? O que Atlético e Coritiba podem fazer contra uma federação que os proíbe de jogar por não terem entrado em acordo com o canal de TV que ela prefere? Simples: usar a criatividade. Na falta dela, existem vários modelos no mundo que podem ser copiados. Só não vale pedir ao papai estado que crie uma lei para protegê-los.

Na Inglaterra todos os grandes clubes são empresas privadas. Visam o lucro, têm acionistas que pressionam por retorno em seus investimentos e que zelam para que o clube não quebre (afinal é o dinheiro deles que está em jogo). Lá os clubes entraram em acordo com a confederação nacional para que eles próprios organizassem o campeonato. Assim, eles mesmos negociam em bloco com os canais de TV, contratam árbitros e negociam patrocínios. À confederação cabe apenas cuidar dos jogos da seleção. Em outras ligas europeias existem modelos parecidos.

Mais legal ainda é o modelo norte americano, onde todos os clubes profissionais dos esportes mais populares também são empresas. E essas empresas organizam os próprios campeonatos sem dar satisfação para confederação nenhuma. Tudo 100% visando o lucro – ou seja – quanto melhor o espetáculo, maior o número de fãs que são atraídos. Quanto mais fãs, mais dinheiro para ser investido em melhores jogadores, em melhorar o espetáculo e em lucrar mais. Pense agora na NBA ou no Superbowl e me diga se lhe parece ruim.

Ok, dois clubes sozinhos não são capazes de mudar todo o futebol brasileiro. Atlético e Coritiba até tentaram fazer algo em 2016, quando ajudaram a fundar a Primeira Liga, que era uma ideia justamente para tornar os clubes independentes das federações. Mas em 2017 a ideia já perdeu força principalmente pela resistência dos clubes maiores em adotar um sistema mais uniforme de divisão das cotas de transmissão.

Para 2019 a dupla Atletiba já negociou seus direitos de transmissão com o canal Esporte Interativo, juntamente com outras equipes, o que já é um duro golpe no monopólio da Rede Globo e uma porta aberta para que novos clubes se juntem a eles.

Além disso, a experiência (mesmo que sabotada) de transmissão pelo You Tube e Facebook parece que tem um grande potencial. Pessoas do mundo inteiro poderão assistir aos jogos de seus times do coração, pagando diretamente ao clube para assistir aos jogos que quiser, com uma experiência muito mais interativa. E os clubes poderão ter um potencial de publicidade muito maior, pois os dados de audiência e cliques serão exatos, com um retorno de investimento podendo ser medido instantaneamente pelos anunciantes.

O futuro já chegou. Os problemas do futebol brasileiro são cada vez mais gritantes. Tecnologia e bons exemplos para resolvê-los não faltam. Só falta que torcedores abram seus olhos e pressionem seus dirigentes a adotar uma nova postura. A resposta, como sempre, é o mercado.